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IGNORÂNCIA HISTÓRICA: UM BASTA CONTRA A PEDAGOGIA DA SUBMISSÃO

Em meio a esse intenso combate “político-social-econômico”, que a sociedade brasileira vem enfrentando atualmente, passam por minha cabeça várias questões, como por exemplo: por que será tudo isso está acontecendo agora? Quais são as motivações das pessoas, em reviverem, simplesmente do nada, essa discussão antiga de “ capitalista x comunista? ”. Aos poucos, era perceptível no brasil uma mudança social, uma realidade mais aberta e democrática, com menos fundamentalismos, com diversas classes sociais historicamente desfavorecidas conquistando espaços que antes eram inimagináveis. E do nada, todo esse movimento se transforma nessa bomba relógio ideológica, onde ninguém parece saber muito bem como se defender ou em que grupo se encaixar.

No final das contas, a verdade é que, ninguém nunca soube muito bem onde se encaixar. O cidadão comum acompanha política como assiste futebol, ou seja, enquanto o time está aparentemente jogando bem, não há do que reclamar. O problema, é que política não é igual a futebol, não existem só dois times jogando, existem uma infinidade de variáveis envolvidas.

Esse método simplista de ver o mundo não nasceu do nada, embutido no indivíduo. Ele é internalizado desde a infância, a partir do senso comum passado de geração a geração, e nas mídias como a televisão, e atualmente, a internet. No caso, a escola seria um divisor de águas, uma possibilidade de quebrar esses paradigmas doutrinários que a sociedade impõe. Porém, como sabemos, não é isso que acontece.

Paulo Freire já disse em sua obra intitulada “Pedagogia da Autonomia (1996) ”, que “Educação não transforma o mundo. Educação muda as pessoas. Pessoas transformam o mundo”. Sem dúvida, hoje temos mais pessoas estudando, o índice de analfabetismo, por exemplo, vem diminuindo a cada ano. Porém, sabe-se que ler não é tudo. É preciso interpretar, de maneira crítica, contextualizando a informação.

Devido ainda a essa falta de problematização da maior parte das pessoas, não é difícil para que as elites manipulem o jogo ideológico da maneira que lhes for mais oportuno. E claro, os poderosos não vão deixar as pessoas crescerem. A manipulação começa logo na pré-escola, no ensino básico, e se perpetua até o médio. O ensino de história, por exemplo, relata para os jovens a história do Brasil a partir da chegada dos portugueses. Ou seja, antes que os europeus chegassem aqui, supostamente não existia história para se contar. São esquecidos diversos temas relacionados a cultura negra, como as religiões, costumes, cultura.Com relação aos negros, só se destacam, no máximo, algumas lutas, conflitos, e pontuais personagens, e mesmo assim, sem um aprofundamento muito amplo. Comemorações como o Dia do Índio ou Dia da Consciência negra são muitas vezes festejadas muito mais como um “baile à fantasia”, do que como um momento para se refletir a importância do outro e exaltar as diferenças.

É por essas e por outras que, me parece muito suspeito, por exemplo, por pior que fosse o governo Dilma, esse Impeachment. Mais suspeito ainda, essa reforma do ensino médio que mantém normalmente Filosofia e Sociologia, e limita da grade escolar de História e Geografia. Com todo respeito as outras matérias, mas, o que é uma sociedade sem conhecimento histórico-geográfico? Sem História e Geografia, Filosofia e Sociologia se tornam apenas “ciências da conservação”, e não da relativização. Será que, o fato de pessoas negras, indígenas, gays, estarem ganhando espaço na sociedade, em diversos sentidos, está incomodando a elite e a classe média de direita, liberal e cristã? Fica o questionamento.

Enfim, para mim, é necessário basicamente um quesito para que toda a sociedade brasileira tenha a condição de exercer seu papel como protagonista.  A resposta é o desenvolvimento da autonomia. Autonomia não só no sentido de saber lidar com o mundo, ou suportá-lo do jeito que é. Antes de tudo, é necessário saber lidar com sigo mesmo, se dar valor, amar quem é, entender a si sem excluir a existência do outro. Essa ideia de respeitar a si e as diferenças parece velha, mas provavelmente é a única forma de se estabelecer um vínculo natural de respeito sem o uso de uma força externa, uma lei, ou uma ditadura. É necessário um ensino que amplie o conhecimento histórico do indivíduo, que mostre que sua existência deriva da cultura antepassada muito rica e complexa. É necessária uma grade curricular mais abrangente, interdisciplinar no sentido pleno, criar disciplinas específicas que abordem esses temas excluídos da história convencional. Em vez de um dia para o índio ou um dia para o negro, devemos celebrá-los todos os dias, ensinar suas músicas, suas línguas, promover grandes eventos escolares, que promovam não só a participação do aluno, mas também dos pais. Só se respeita aquilo que se compreende. Só se compreende aquilo que se estuda. Só se estuda aquilo que é necessário ser estudado. Ou seja, é necessário estudar não só uma história, mas todas as nossas histórias.