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O 15 é a solução

Sob o sol forte de um sábado chato, ouço os jingles do Lúcio. Todos eles são ritmados na cadência que o povão gosta – pagodão, arrocha e forró. Os carros de som são todos potentes, sendo possível ver as pessoas segurando placas e santinhos um pouco mais à frente das locomotivas. Com as minhas sacolas de compras, fico na indecisão de permanecer na Isnard Pena ou dobrar a esquina, tomar um caminho alternativo e ir logo para casa. Depois de seculares segundos, decido ficar por ali mesmo dentro do comércio de alguns conhecidos, afinal de contas, as carreatas são ótimos eventos para análise.

Ubaldino em campanha eleitoral com seu irmão, Lúcio Pinto e correligionários
Reprodução Facebook

É período eleitoral; é clima eleitoral; é música eleitoral e é uma total merda eleitoral! Os graves chegam primeiro que a harmonia – os produtores musicais sabem que as frequências mais baixas são sentidas nas “caixas dos peitos”. A letra, claro, inteligentemente, afirma que Porto está ruim e que o tal candidato é a solução, de modo que a mensagem pesada fica anexada à parte ‘sentimental’ da música, que é constituída basicamente por teclados sintetizados, fades e melodia triste.

Mas é um acorde anunciador que abre alas e tenta afirmar que a solução de todos os problemas dessa cidade está no número 15; nessa ‘linha alternativa’ significada pelo agito dos surdos que dobram no pagode com suingue, significada pela embriaguez oferecida pela catuaba que vi nas mãos de pelo menos dois possíveis votantes e da fé vivificada pela frase que, em suma, dizia – “ajuda este irmão de fé” – proferida, curiosamente, por um candidato protestante, em meio àquela parafernália.

“Cadê o Lúcio?” – Perguntei para as pessoas que estavam dentro do comércio. Não obtive nenhuma resposta.

“Olha lá o Ubaldino! É ele, é ele!” – disse alguém animado, perto de mim.

Ubaldino Jr. é um político nato! O cara sabe como cativar o público! Peita a missão de colocar o irmão Lúcio nas graças do povo e, para isso, ele se utiliza de sua emissora, de seu alcance financeiro, do fanatismo de seus correligionários e de seu poder de persuasão. Se molha com água mineral de copinho! Ajeita os óculos de sol, mas não os usa; seu jeans e seus tênis são simples, mas seu sorriso é de quem sabe muito bem o que está fazendo. Ubaldino é do povão e o povão sabe que ele é do povão. O Gabiru, eu acho que ainda sentindo o roçar dos pentelhos de seu chefe, assina esta última máxima.

Aquele que foi o tipo “rouba, mas faz” se aproxima e cumprimenta todos os que estão próximos. Naquele momento em que, sorrateiramente, dei um leve passo para trás, para não ter que dialogar com o ‘Uba’, ele respeitou e eu obtive êxito. Falou com mais quatro ou cinco pessoas próximas a mim, cativou a todos, falou como se fosse da casa deles, como se sofresse as mazelas do povo, e foi aí que notei que se minha memória não fosse boa, eu teria escorregado naquele papo furado que estava presenciando.

Não só hoje, na ‘reta final’ das eleições, mas, também, durante todos os outros dias do ano, ao diariamente apresentar seu programa de rádio, Ubaldino se comporta como desconhecesse o seu passado. Comporta-se como se as dezenas de milhões de reais que foram desviados da educação e da saúde, em sua gestão, fossem fictícios, parte de um passado que não existiu. Se porta como salvador de um povo, quando na verdade foi o estuprador dos cofres públicos deste município, deixando-o nacionalmente envergonhado, assim como fica envergonhada uma mulher após ser abusada.

Ele dá de ombros e o meu campo de visão o perde, ao passo que fico bobo ao ver o total de pessoas que acreditam nas propostas do Lúcio e o seguem. Acreditando que ele representa uma política nova, estas pessoas parecem não saber que os escândalos do Ubaldino envolvem o Lúcio desde tempos passados. Fico impressionado com o número de pessoas que fazem daquele momento uma inocente festa, assim como se assa uma carne no final de semana no quintal de casa. Sob o sol forte de um sábado, não mais tão chato, minha audição já não sente mais os jingles de Lúcio; tomo o meu caminho de volta para casa e penso que se o meu título me obrigasse votar aqui em Porto Seguro, acho que seria um dos cidadãos mais tristes deste país.

  • Radha Arruda

    <3