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A Vila, Verde

“Cabe ao costume dar forma à nossa vida, tal como lhe agrada” Montaigne

 

O arraial do Espírito Santo dos índios, mais tarde Vila Verde e hoje Vale Verde, começou por volta do ano de 1564, por causa de um caso de amor; tudo isso, porque a índia Patativa, apaixonada por um português e querendo salvá-lo do ataque dos índios Gueréns, fugiu numa canoa Rio Buranhém acima e foi refugiar-se na sua aldeia, quase três léguas de Porto Seguro.

A partir deste romance, a Capitania passou a ter a sua única vila no século XVI, que não era litorânea. 0 território do município de Vila Verde, criado em 1762, foi extinto e anexado ao de Porto Seguro pelo decreto lei nP 1.190 de 28 de maio de 1917. Uma característica no entanto, difere esta, de todas as outras vilas do município de Porto Seguro: a sua etnia. Se se fizer um estudo etnogênico, é possível que se descubra que eles têm muito de europeus, não portugueses, que foram os colonizadores do início do País, mas, talvez, de italianos, suíços ou alemães (Arianos? E se Mengele conseguisse descobrir isso? Porque uma grande maioria dessa gente é branca, loira e possui olhos azuis, características completamente diferentes dos caboclos descendentes de índios, negros e portugueses que é a predominância de todas as outras vilas do município. Talvez estas características tenham sido mantidas, porque até 1970, essa vila se mantinha a mais isolada de todas e o seu acesso era feito através de trilhas na mata ou pelo Rio Buranhém, navegado por pequenas canoas movidas a remo e a vara; estas dificuldades de locomoção e comunicação, sempre reduziram o contato com outras aglomerações.

Seu pequeno comércio e seu abastecimento, eram renovados à cada um, dois ou três meses, quase sempre por canoas que gastavam em média 10 a 12 horas para subirem o rio carregadas com mantimentos e, quando voltavam, vinham com cacau, café, farinha, etc. Esse mascateamento, duraria até 1970, com a chegada da estrada. A outra maneira de se chegar à vila, isso já depois da estrada Porto Seguro/Eunápolis, era ir-se de carro até o Km 21, onde ficava o porto de Iraípe, uma antiga Sesmaria e daí, descer de canoa em viagem que durava mais ou menos duas horas, até o porto da vila.

Vale Verde sempre desenvolveu uma agricultura diversificada, a exemplo do café, cacau, mandioca, legumes e verduras, além de cana para fabricar a cachaça e a rapadura; a pesca, principalmente a do pitu, era abundante e começou a rarear quando o Projeto Vale Verde começou a dragar o Rio Buranhém, acabando assim com os pontos de desova e, conseqüentemente, com a sua piscosidade.

Em 1940, a vila possuia 277 almas; em 1950, 374; em 1960, 281 e em 1970, 244 (fonte IBGE ); pelo quadro demográfico acima, pode-se notar que o seu maior desenvolvimento foi entre as décadas de 1950/60; com a falta de trabalho e os crescimentos de Eunápolis e Itabela, as pessoas começaram a se deslocar para estes dois povoados à procura de mão de obra. Aos 20 anos, a maioria dos homens já estavam casados; quanto às mulheres, bastavam se tornar mulher para arranjar um casamento; aos 25 anos estavam quase todos sem os dentes e as mulheres aos 25, estavam gordas e deformadas pelo excesso de trabalho e de cria. Envelheciam precocemente.

A vila, como quase todas as outras da região, no século XVI, foi formada retangularmente no sistema de “praça honesta” com uma igreja na frente. Esta igreja, de São Miguel, padroeiro da vila, ao contrário da afirmação de alguns historiadores, nada tem da original, construída em 1580; com a virada do século, a igreja também virou no chão por maus tratos e descaso. A atual, foi erguida por volta dos anos 30 numa posição totalmente contrária a original que ficava no lado leste e tinha a frente para o oeste. Embora a igreja seja de São Miguel, a festa mais concorrida da vila é a de São Cosme e Damião. No interior desta igreja, apesar de ter algum material da antiga, de valor, uma cruz, cálices e navetas de prata e um velho confessionário já todo destroçado.

Em 1974, a economia da vila passou a ter uma nova e, porque não dizer, inusitada  dimensão com a construção, manutenção e exploração de um alambique pela prefeitura para a fabricação da cachaça Vale Verde, a melhor da região, engarrafada e exportada em pequena escala mas que dá para o sustento dos lambiqueiros. (Se Al Capone estivesse vivo, daria belas gargalhadas ao ver um governo — talvez o único no País — apoiá-lo na luta contra a famigerada Lei Seca.)

Ainda no final dos anos setenta, implantou-se o Pólo Nordeste, e, com ele, a energia; já que a água através de um chafariz público, havia chegado em 1973; isto dizimaria um pouco as pequenas indústrias de cachaça e farinha, mas alguns pouquíssimos fornos de beiju, que continuam semi-artesanais, mantendo assim, Vale Verde afastada de todo o reboliço e modismo da região. É como se a vila ainda se mantivesse virgem ou, quando muito, as intenções estivessem patinando ainda entre as suas coxas… Coxa engravida!…