eu-em-minha-aldeia-global

Eu, em minha Aldeia Global

Quando o telefone tocou, Caboquinho de Raulino, com sua voz estridente, de taquara rachada, solicitamente, como bom e educado atendente, atendeu:

– Centrá telefônica a suas orde…

O sistema DDD (Discagem Direta à Distância) de telefonia estava recém inaugurado e agora Porseguro poderia falar para o mundo. Aquilo, naquela pequena, acanhada, desconhecida e amorfa cidade perdida no interior da Bahia e do Brasil, era o símbolo da modernidade. Agora, com o dobro dos vinte aparelhos, novinhos em folha, instalados graças ao empenho de Mané Carneiro, o prefeito, que era quase vizinho da “centrá” que ficava na Av. Portugal 350, na casa de Jongino que de verdade era João Higino. Porseguro se conectava com o mundo.

-Alô! Donde fala? Perguntou o solícito funcionário, um dos descendentes das quatro únicas famílias de negros residentes na velha Aldeia.

É de Salvador. – Respondeu a voz feminina do outro lado da linha.

– E quem fala?

É Radha?

– Quem?

Radha.

– Ah! A professora Raydalia? – Pensando ele ser a grande educadora da cidade.

– Não. Radha.

– A professora Raydalva, irmã dela?

– Não. Radha.Radha. E não sou professora. Ainda vou me formar. Sou aluna da UFSB.

– Cuma?

– Aluna da Universidade Federal Sul da Bahia.

– Ah! Pensei que fosse de argum time de futebol.

– Não. Sou estudante e gostaria de lhe pedir um favor.

– Às suas orde. A sinhora manda.

– Eu gostaria de falar com o sr. Romeu Fontana. É possível?

– Com o Velhoroma?

– Não. Com Romeu Fontana.

É ele mermo e é meu amigo. Ele mora aqui pertinho. (E apontava com o dedo, mostrando a direção da casa, como se ela a estivesse vendo).  Aguarde só um instantinho até o outro funcionaro, Marco de Ramundo Costa chegá que ele vai chamá ele. Ele num deve demorá. Cuma é mermo o nome da sinhora?

Radha.

Nesse instante, ele viu a bicicleta de Marcos parar na porta. Antes que ele saltasse, o solícito funcionário pediu que ele fosse até a casa do Velhoroma e o chamasse. Isso, disse ele à moça, se ele estivesse em casa, pois mesmo dentro da modernidade a pessoa de fora tinha que ligar para a central e esperar que o chamado fosse realmente chamado em sua casa. O risco que se corria era de o chamado não estar e a pessoa ter que ligar outra vez ou esperar no aparelho a demora dele chegar. Se ele morasse longe, o custo da ligação seria maior.

Marcos, que gaguejava um pouco, levou menos tempo da Central até minha casa, do que propriamente me dar o recado.

-É um telefonema lá da Bahia. Disse ele.

Eu sabia que naquele caso Bahia era como todos nós, do interior, chamávamos a capital, Salvador. Larguei o cigarro (um sari, embora muitos pensassem que era maconha) que estava enrolando e, mesmo sem camisa, me dirigi à Central que ficava 4 casas da minha e até podia-se ouvir o trinado das chamadas de lá.

– Você sabe de quem é?

Caboquinho disse que é um tal de Radar

Radar? O único Radar que eu conheço é um jogador meia boca do Flamengo. Por que estará ligando pra mim?

-Ele disse que é prum negócio de escola.

-Tá bom.

Deixei o anzol que estava estrovando, apaguei o sari para que não pensassem que era maconha, pois é feito de fumo picado, enrolado como maconha, tem um odor abrangente, mas é de fumo de rolo, e fui até a Central que ficava a menos de 50 metros da minha casa.

– Tem uma mulé querendo falá com você, velho. – Disse Caboquinho.

– Mulher?

– É. Lá da Bahia e é estudante.

Peguei aquele negro e nobre falante, descoberta de Grahan Bell e vi o quanto aquilo tinha sua valia para o mundo atual, pois encurtava a distância dele, fazendo com que uma pessoa falasse com a outra através de um simples fio. Enfim, estávamos conectados com o mundo moderno. Graças à perseverança de Mané Carneiro, naquele moderno ano de 1976.

– Alô. – Disse eu, solicita e educadamente, mas descobri que havia invertido o telefone, por falta de costume, coloquei o local de falar no ouvido e o do ouvido na boca. Avisado por Marcos e já sentado, consertei a posição do possante falante e escutante.

Depois da devida apresentação, Perguntei seu nome e perguntei se era indiano. Ela confirmou e eu fiquei imaginando o exotismo daquela estudante, longe, lá do outro lado da linha; ela disse que havia ouvido falar de mim por uma professora e queria a minha colaboração para o jornal da sua universidade. Disse que a ajudaria, e que ela até que tinha dado sorte, pois, no dia anterior tinha comprado, no armarinho Santo Antônio, as fitas para a minha máquina de escrever Remington.

– O quê? – Perguntou ela, sem entender do que eu estava falando.

– Ah! Mas já resolvi. O problema agora são as cópias, pois o meu mimeógrafo está quebrado.

O quê? – Voltou a perguntar espantada.

– Mas não tem problema. Eu vou pedir emprestado da escola da professora Soninha, que é mais moderno, é a álcool. Aqui, só tem dois. O outro é o da prefeitura que não vai me emprestar pois, como eu PENSO, logo eles me evitam.

– Do que você está falando? – Perguntou Radha, espantada.

– Estou falando de como escrevo e de como publico o que escrevo.

– Como assim? – Perguntou espantada sem entender nada daquilo que, para mim era a minha modernidade.

– Escute, senhor Romeu Fontana, em que cidade, em que país e em que época o senhor vive?

Como assim? – Perguntei meio desajeitado. Afinal, era ela quem me pedira um favor. – Eu vivo em Porseguro, em 1976, minha jovem.

– Em 1976? Nós estamos em 2016; acho que errei de entrevista. O senhor está atrasado 40 anos. Por acaso o senhor já ouviu falar em e-mail, smartfone, celular, facebook, camScaner, Messenger, WhatsApp, Blogger, play store, Google?

-Não. Por quê?

– Você também nunca ouviu falar em Steve Jobs, Mark Zukerberg, Bill Gates?

– Claro que não! O que é que eles têm a ver comigo?

– Mas em que lugar, em que ALDEIA GLOBAL o senhor vive, senhor Romeu? Nós estamos em 2016! Alôoooooo!

– Mas eu não vivo em nenhuma ALDEIA GLOBAL, minha jovem. Eu vivo aqui, na minha ALDEIA DE PESCADORES.

Só ouvi o tilintar do telefone desligado na minha cara e alguma coisa, longe, parecendo um palavrão. Não entendi nada. Essa mocidade de hoje, com sua modernidade…..

Picaretópolis, 5/11/2016

Velhoroma, completamente perdido no tempo, mas procurando um espacinho. Só um espacinho, para se contemporizar.