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O penúltimo bom lugar

Até 1950, Porto Seguro não passava de uma pequena vila, com 1.888 moradores, em cujo comércio predominavam pescadores e mascates do rio; predominância desde os tempos da colonização. Por causa desta predominância, a cidade começou a se formar de acordo com as curvas da desembocadura do rio Buranhém.

(…) O descrédito com a cidade era total, as perspectivas de mudanças não se apresentavam e muitos ou quase todos, achavam que eram nenhuma. Isto fez com que do meado dos anos de 1950 a meado dos anos de 1960, ocorresse o grande êxodo de jovens em direção a Salvador, Ilhéus e Rio de Janeiro, em busca de um outro tipo de vida que não aquele — é que a maioria ou era pescador ou descendia destes — de se deitar cedo e levantar-se de madrugada para pescar de linha ou retirar as redes, voltando onze horas ou meio dia, vender o peixe, dormir um pouco para no final da tarde, estava enrolando fio, fazendo, consertando ou entralhando redes em varais. No dia seguinte, tudo de novo. Eles queriam um pouco mais e estavam indo para isso.

(…) A cidade que sempre foi muito religiosa, também foi sempre cheia de tradições, crenças e muitas superstições. Havia muita crendice e às vezes mais bastava um remédio caseiro, uma simples simpatia ou uma boa rezadeira do que o melhor dos profissionais na arte da medicina. Para se tirar uma espinha de peixe atravessada na garganta de alguém, bastava se girar um prato em cima de uma mesa e, se por acaso não desse certo, era só pegar um barbante e medir o “pinto” (sexo) de algum rapaz, e passar o barbante pelo pescoço do paciente, que era tiro e queda.

No caso de uma mordida de cobra — dificilmente se tinha soro antiofídico — bastava que se lambuzasse o ofendido de cocô (isso mesmo, merda) que o veneno não faria efeito, para uma tumescência, a melhor coisa a se fazer era levar a pessoa a uma rezadeira para que ela em cima do tumor, com uma linha, fizesse uma cruz. Os chás de folha, geralmente curavam febres, e bronquites e, no caso de uma costela quebrada, melhor que gesso ou ataduras, era se tomar todas as manhãs um copo do leite da mangaba, uma planta apocinácea donde se extrai um leite igual ao da seringa e que como esta também, durante a Segunda Guerra Mundial, tentou-se extrair borracha. Em casos de diarréias, nada melhor do que chupar um trinque-te (caju Verde) ou comer uma banana também verdosa que era para apertar “o fevereiro”.

Para curar doenças venéreas, bastava o freguês sentar-se numa bacia cheia de ovos crus partidos e deixar que eles fossem entrando pelo ânus a dentro ou então, misturava-se a clara de dois ovos a meio copo de óleo de rícino e o deixava dormir no sereno para no outro dia beber. Para uma pequena ferida sarar, o remédio era passar cuspe ou lamber como os animais. Para um corte cicatrizar, pó de café ou a seiva da bananeira que também servia para hemorroidas. No caso de diabetes, chá de folha de guaru. Se era uma contusão séria, como o rompimento dos ligamentos do joelho, bom mesmo – e isso eu posso comprovar – era a seiva amarelada de uma árvore chamada Guanandi. De verdade, durante mais de quatro séculos, a pessoas eram curadas por e como índios da época do descobrimento.

Quanto aos dentistas, na sua maioria, eram práticos, gostavam de ser chamados de “protéticos” e só sabiam arrancar os dentes e fazer dentaduras carregadas de ouro. Não precisa dizer muito das dificuldades que tiveram os médicos que se aventuraram a viver na cidade exercendo a sua profissão.

Era um povo que acreditava em milagres, em dádivas e tinha como maior sonho, ficar rico do dia para a noite, ou melhor, da noite para o dia, presenteado com ouro ou dinheiro que alguém que tivesse morrido, lhes viesse deixar em sonho.

(…) Uma parte considerável de antigos moradores da cidade, já recebeu ou já sonhou estar recebendo algum tesouro enterrado.

Era um povo apegado aos seus travesseiros e colchões, suas ideias, suas tradições, um pouco por temor e um pouco por ignorância. Qualquer mudança para vir, tinha que ser lenta e gradual, sem ferir preceitos nem ofender crenças em coisas fantásticas.

(..) Para se tentar convencer o barqueiro que fazia a travessia numa canoa a remo e vela para o arraial d’Ajuda de que os tempos estavam mudando e ele teria, se quisesse acompanhar as mudanças, que comprar um pequeno motor para o barco e a balsa que transportava veículos, foi um trabalho Hercúleo porque ele não se convencia que a cidade estava mudando e progredindo e alegava que não conseguiria adaptar-se a um outro sistema que não aquele, que vinha manejando desde menino e que lhe fora passado e ensinado por seu pai. De verdade, as pessoas se sentiam ofendidas com o novo, o desconhecido.

(…) De verdade, os porto segurenses jamais tomaram consciência de suas responsabilidades e importância. Responsabilidade pelo tratamento de suas coisas físicas e patrimoniais; e importância, pela preservação de sua memória que sempre esteve embriagada pelo torpor alcoólico, causado pela bebida do descaso. As pessoas eram simples, puras e viviam o seu dia-a-dia; só as coisas que estivessem ao alcance de suas mãos e de seus olhos, as preocupavam.

(…) Tinha-se tempo pra sonhar e calma pra pensar. As informações eram muito poucas e, quando vinham, eram trazidas por marinheiros, pescadores ou um ou outro aventureiro que de quando em vez, aportava na cidade.

(…) A verdade é que Porto Seguro passou a ser simplesmente, uma velha e amarelecida fotografia na retina de uns dois ou três que ainda se lembram dela de quando em vez.

 

*Texto, condensado do capítulo O PENÚLTIMO BOM LUGAR, extraído do livro “Porto Seguro de aldeia de pescadores a aldeia global” de Romeu Fontana, 1988.