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Uma visagem muito manhosa

 

Já não dava mais. Assim não era possível. A cidade não podia mais continuar com uma coisa daquelas. Toda noite depois de uma certa hora, as pessoas não podiam dormir direito nem sair à rua com medo do que estava acontecendo. Mas o que estava acontecendo? É uma visagem, diziam uns; é um boitatá do tamanho de uma baleia das bem grandes, diziam outros. Não, é um mandu com a cabeçorra que não tinha mais tamanho. Que nada, é uma mula-sem-cabeça arrastando um monte de correntes pelo chão e fazendo um zoadeiro medonho. O que eu vi foi um saci de boné vermelho e uma perna só, com um imenso cachimbão na boca. Eu vi um lobisomem mais peludo do que macaco gorila.

As opiniões sempre se desencontravam, mas que era alguma coisa era! E estava assustando aquele povo bom e pacato e só podia ser coisa do diabo, porque coisa de Deus ninguém acreditava, porque todos ou a sua maioria era católica e sempre rezava. Para um povo que desde os primórdios sempre fora medroso e cheio de superstição aquela situação estava ficando insustentável. A conversa era uma só de noite as pessoas que tinham por hábito se reunir para jogar dama, dominó, baralho ou simplesmente contar estórias parou de tudo.

Ninguém se arriscava a ficar exposto aos domínios do Cão, porque de Deus não poderia ser. Todos os hábitos noturnos da cidade foram mudados. O medo era tanto que famílias inteiras, na boca da noite, reuniam-se para rezar junt

as enquanto as beatas arrecadavam dinheiro para mandar celebrar missas. Comissões de religiosos foram ao padre pedindo uma exorção para aquilo, mas o padre negou-se, dizendo-se leigo no assunto; aquilo não podia ficar assim, alguém tinha que tomar uma providência. Foram ao prefeito e este prometeu resolver o caso.

Dias de­pois desistiu porque não encontrava colaboradores para ajudá-lo. Aquilo já estava se tornando um caso de polícia e o delegado quer quisesse ou não, teria que ajudá-los, pois ele estava ali para isso e não era justo deixar uma cidade inteira sofrendo daquela maneira. Teve gente que chegou até, de medo, a procurar o único médico da cidade.

O delegado que também confessou não sair de casa à noite, disse que a delegacia só podia resolver casos de gente, de visagem não, porque ele além de não ter material humano para tal, também não tinha aparelhagem. A situação estava ficando desesperadora para os moradores. O que fazer era a pergunta que todos se faziam. Só lampião, eles acreditavam, ou Canção de Fogo, poderiam resolver um caso como aqueles, porque os dois eram machos mesmo, e dos retados; mas os dois, todos sabiam, já haviam morrido e Canção, muitos nem sabiam se havia existido ou não.

Alguém tinha que dar um jeito, assim é que não podia ficar. Um belo dia, e isso já um bom tempo depois, alguém apareceu dizendo que tinha visto a visagem de uma forma diferente: um lençol branco, 60 magro, que horas crescia, horas diminuía. O pescador jurou; aí tinha acutinhga! Dois outros pescadores resolveram por conta própria tentar resolver o grande mistério. Tanto no primeiro quanto no segundo dia, nada. No terceiro, os dois resolveram arriscar e sair às ruas. Arranjaram um umbigo-de-boi e um rabo de arraia e foram pra rua onde se dizia que ela, a visagem, ou sabe-se lá o que, gostava mais de aparecer. Já passava da meia-noite quando os dois ouviram bem longe uma zoada como se alguém estivesse arrastando correntes. Um dos dois quis desistir, mas o outro, mais corajoso, o segurou. Já que eles tinham se arriscado daquele jeito e até ali, não era justo uma desistência àquela altura do campeonato, embora nenhum dos dois soubesse qual era o jogo que estavam jogando, nem quem era o adversário. Já que tinham ido até ali, iriam até o fim.

A barulheira assustadora, diga-se de passagem, estava cada vez mais próxima, era de arrepiar. Por isso, ninguém até então ousara enfrentar aquela “coisa” ou fosse lá o que fosse. E a coisa foi chegando perto e aparecendo. Eles saíram à rua e quando a coisa os viu começou a mudar de tamanho.

Era realmente assustador. Horas ficava alta e magra, com mais de três metros de altura, horas baixava e ficava normal, toda branca, como se aquilo realmente fosse um lençol. A princípio os dois quiseram correr, mas veio uma tesãozinha de mijo e eles resolveram permanecer pra ver o que seria aquilo. Quando a “coisa”, visagem, ou sabe-se lá o que, viu que os dois não fugiam como sempre acontecera com a maioria da população, foi ficando nervosa.

Horas ficava de um tamanho, horas de outro e começou a misturar tudo no intuito de que aqueles dois desgraçados, como a maioria, desistisse logo de uma vez e fossem embora. Quando viu que nem um, nem outro desistia e, pelo contrário, estavam tentando enfrentá-lo e tiravam de suas roupas as armas que haviam levado, o rabo-de-saia e o umbigo-de-boi, a visagem, ou fosse lá o que fosse, começou a dar pra trás e fez menção de sair correndo apavorada: “ Se for de deus que fique, se for do Diabo, que corra”, gritaram os homens, enquanto caiam em cima da visagem de rabo-de-saia e umbigo-de-boi.

“Pelo amor de deus, não faça isso”, gritava uma voz quase chorosa e apavorada, enquanto tentava se desvencilhar do lençol e de uma vara, que servia para lhe aumentar ou diminuir o tamanho, fazendo com que as pessoas se borrassem de medo. E tome bordoada e o cara agora, sem nada por cima, pedia pra parar e os dois metiam o reio nele, até que ele caiu e começou a contar a sua estória, que fazia tudo aquilo simplesmente para afastar os curiosos, enquanto ele poderia transar tranquilamente com a sua amada, uma conhecida senhora casada. Desse dia em diante, todos naquela cidadezinha puderam viver felizes e dormir sossegado.

Exceto alguns maridos!

*Texto extraído do livro “Porto Seguro de aldeia de pescadores a aldeia global” de Romeu Fontana, 1988.